A amarga vida de Joyce

Gumercindo!

Gumercindo!

A amarga vida de Joyce

Nem Deus sabia porque ela nascera. Mas nascera.

– Deve ter sido algum erro na maternidade – desculpava-se Ele.

Joyce. Nome de chacrete, filha de pai militar e mãe hippie, só podia dar nisso mesmo. Seu pai era muito machista, e sua mãe uma lunática, estava cercada por dois típicos elementos sociais contemporâneos.

O pai não deixava a mãe trabalhar e esta, por conseguinte, passava o tempo todo em casa fazendo mapa astral, lendo horóscopo chinês, acendendo incenso e colecionando fotos de Luckskywalker.

Talvez por isso Joyce fosse excêntrica e revoltada.   Excêntrica porque, além de ter duas moscas como animais de estimação, andava para cima e para baixo cantando sem parar. Não seria problema caso não recomeçasse uma nova música ao ouvir uma palavra que achasse interessante:

–        Joyce, vou sair e levar a chave de casa.

–        “Eu to voltando pra casa, de vez…” – cantarolava.

–        Pare com isso, Joyce! – gritava a mãe.

–        “Pare! Até quando você vai mandar e mudar minha vida” – continuava.

–        Menina, assim você vai me enlouquecer! – berrava a já irritada mãe.

–        “Menina, que um dia eu conheci criança, me aparece assim de repente…” – e assim seguia.

Se ninguém nada falasse, cantaria a música repetidamente quantas vezes fossem, até a hora de dormir.

E revoltada porque, entre outras coisas, não conseguia entender para que tomar banho se iria se sujar novamente. Talvez por isso se desse tão bem com as moscas de estimação.   Não que ela fosse porca, muito pelo contrário, não gostava de sujeira, mas achava banho – “simplesmente dispensável”. Sua higiene resumia-se a se limpar com uma esponja, sabão e um pouco d’água.   Na adolescência não era muito bem vista pelos colegas, não teve melhor amiga, muito menos namorado.

Mas mesmo com seus hábitos um tanto insólitos, prosperou na vida. Formou-se em Jornalismo – é um fato, não se está insinuando qualquer animosidade dos profissionais da área pelo banho – fez Pós na PUC e Mestrado na USP; falava quatro línguas distintas e dois dialetos árabes, uma sumidade. Só não se auto denominava a nata da comunicação porque não gostava de leite.

Depois de trabalhar como free lancer, fotógrafa, jornalista de rua, entre outras funções, conseguiu a vaga de editora de um grande jornal de São Paulo. E mais, tinha uma sala só para ela, decorada com fotos de Silvester Stallone, Ney Matogrosso nu, e a Seleção de 1.990, aquela de Lazaroni – tem doido pra tudo.

Mantinha o costume de cantarolar, mas respeitava o ambiente de trabalho, quando tinha vontade, trancava-se no escritório e passava a tarde todo entre melodias. Só não abriu mão das moscas…ah, isso não. Já estavam na enésima geração, mas sempre as tratava como pets.

–        Ernesto, pare de rodear o moço – falava para uma das moscas que rodeavam um jornalista recém contratado.

–        Isso Ernesto, sai um pouquinho… – dizia o novato tentando ser simpático, já ciente das loucuras de sua superior.

–        Que Ernesto o que?! Essa é a Gumercinda… – indignou-se Joyce.

–        Eu não sabia.

–        Peça desculpas, ela ficou ofendida! – exigiu.

–        Mas para uma mosca? – perguntava atônito.

–        Desculpas ou o emprego? – ameaçava ela.   E assim ia. Mandando e desmandando, pra lá e pra cá.   Deveria estar feliz, tinha tudo para ser feliz, mas não era. Não sonhara com nada daquilo. Apesar de nunca reclamar, sabia que o pessoal do trabalho não gostava de suas moscas, de sua cantoria, de seu cheiro; colocar os pés sobre a mesa então, nem pensar…   O mundo não estava preparado para ela, nem ela para o mundo. Ernesto e Gumercinda é que eram felizes, tinham um ao outro para se amaram e alguém que lhes protegia.

Joyce parou e refletiu. Transformara-se naquilo que mais repugnava: gente.   Quis sempre ser livre, ser feia, não tomar banho…Queria voar como as moscas, queria se esgueirar nos cantos do escritório, esconder-se das pessoas.

Elas eram muito complicadas. Tomar banho para se sujar novamente, arrumar a cama para desarrumá-la ao dormir, passar fome para ficar mais bonita, gastar dinheiro para ficar devendo, casar para esquentar a cabeça…   Este não era seu mundo.

Correu até a porta de sua sala, abriu-a e gritou a todos que estavam na editoração:

–        Isto tudo é uma… – calou-se, podia ser tudo, menos mal educada.

Todos a olhavam, não aquele olhar no qual enxergamos a pessoa, vemos propriamente, mas aquele olhar reprovador, que diz mais do que qualquer palavrão.

Sim, achavam-na louca, totalmente pinel, uma maluca – “acho que foi a falta de banho” – dizia um fotógrafo ao diagramador.

Fechou a porta, trancou-se, a bem da verdade. Uma idéia absurda passou pela sua cabeça. Olhou para a janela, toda de vidro, vigésimo andar – por parecer absurda, a idéia começava a lhe seduzir – quem sabe poderia voar – sim, a idéia além de absurda, ganhava ares suicidas – sim, iria voar, libertar-se-ia daquela maldita sociedade “lorenzética”, “coronária”.   Abriu a janela, sentiu o vento soprando seu corpo e, apesar de não gostar, admitiu que estava precisando de um banho.

Ernesto e Gumercinda, a esta hora, temiam pela saúde e integridade de sua dona e voavam à sua volta para tentar fazê-la desistir da idéia. Falariam, se soubessem falar, que apesar de tudo a vida era linda, cheia de doces e migalhas – mas não conseguiriam convencê-la com tais argumentos.

Então, de súbito, ela pulou, quer dizer, não tão de súbito, ela contou até três, suspirou, tomou coragem e pulou.   Antes de cair no chão tentava rasgar suas roupas como se estivesse envolta num casulo.

Pof! O barulho de seu corpo no chão. Morrera. Para alguns uma pena, para outros uma alegria.

De longe, mas não muito longe, Ernesto e Gumercinda contemplavam a cena.

Não com pesar, não com tristeza, mas com uma felicidade imensa, sim, isto mesmo, pois só eles, somente eles, percebiam a linda borboleta, recém saída de um casulo, sobrevoando o corpo de Joyce.

E assim juntaram-se à nova companheira e voaram os três, juntos, felizes sem banho algum, como se estivessem cantarolando.

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