Ariovaldo

Outra antiguinha…

obra de Andy Warhol

obra de Andy Warhol

Ariovaldo

Ariovaldo. Um garoto sorridente, simpático, esbelto. Todos gostavam de Ariovaldo. Só não tinha muita sorte com as mulheres, mas não se abatia.

Ariovaldo. Considerado sempre uma promessa. Quando pequeno tentaram colocá-lo para jogar futebol. Não deu certo, era muito ruim.

Na adolescência sua beleza começava a despontar. Seus pais o achavam lindo, ele se achava lindo. Os produtores de TV não. Davam-lhe uma chance, mas não era fotogênico, muito menos bonito. Um chegou a dizer – “rapaz, você não tem chance alguma, é um ‘quase lindo’, tem tudo pra ser lindo mas é feio” – disse sem escrúpulos.

Ariovaldo. Tentou estudar. Era aplicado, bom garoto, muito esforçado. Não prosperou. Não estava no mesmo nível dos demais alunos, era inferior. Seu sonho de tornar-se um Phd em Física Quântica acabara.

Ariovaldo. Não desistiu do mundo artístico. Achou que seu lugar era como locutor de rádio. Possuía uma voz aveludada, muito bonita. Sim, não teria problema. Houve. Mais uma humilhação. Foi barrado no primeiro teste. Sua dicção era absurdamente horrível. Indicaram –lhe até uma fonoaudióloga, mas ele não foi, não tinha dinheiro. Mas não desistia. Sempre acreditou no que seus pais disseram. Seria famoso. Não era à toa que sua mãe, inflamada de emoção, dizia – “meu filho é o melhor filho do mundo” – e ele sabia disso.

Ariovaldo. A fama o esperava, lá quieta, num canto qualquer, mas o esperava.

Ariovaldo. De tanto ouvir rádio decidiu ser músico. Cantor não! Já não agüentava mais críticas sobre sua dicção, como se ele soubesse o que é isto.

Tocaria guitarra. Procurou montar uma banda, ligou para amigos, desconhecidos, tentou carreira solo, em vão. Todos achavam-no um péssimo guitarrista. Mas ninguém lhe disse isso, ficaria magoado. Ele destinou mais este insucesso ao azar.

Ariovaldo. Como era querido por seus pais, vizinhos, amigos e por ele mesmo, decidiu se candidatar à vereança. Sim, teria fama, status, respeito.

Fez propaganda política, promessas, pegou crianças no colo, deu e recebeu tapinhas nas costas…mas não entrou.

Recebera apenas dois votos. O seu e de seu pai ou sua mãe. Entendeu. Tinha que entender. Mesmo assim ficou magoado. Ninguém o respeitava, nem seus amigos, nem seus pais.

Aonde estariam seus quinze minutos de fama que um tal de Wahrol havia dito? Aonde? Nem quinze segundos ele teve em toda sua vida.

Ariovaldo. Pela primeira vez caiu na real. Não era especial coisa nenhuma. Era uma pessoa comum. Não era nada do que seus pais falavam.

Ariovaldo. Procurou um emprego. Queria ao menos ganhar dinheiro, trabalhar. Não encontrou nada que o interessasse, mas precisava trabalhar.

Seus amigos trabalhavam, seus pais trabalhavam, até o Luxemburgo dizia que trabalhava. Todo mundo menos ele.

Ariovaldo. Teve que aceitar o emprego de gari. Varrer ruas não exigia muito de sua capacidade, era simples, bem simples, simples como ele.

Ariovaldo. Era um bom gari, reconhecido por seus colegas de trabalho. Mas não era o melhor, era um gari, um simples gari.

Ariovaldo Finalmente tinha uma vida normal. Não estava feliz, queria fama, glamour. Tudo o que lhe prometeram quando pequeno. Ao menos tinha uma vida. Vivia andando de casa para o serviço, do serviço para casa.

Ariovaldo. Numa dessas idas e vindas, sempre de bicicleta com seu uniforme de gari, foi atropelado. Atropelado pelo carro do prefeito da cidade.

Enquanto ele sucumbia, câmeras, máquinas fotográficas, repórteres, gente, muita gente, aglomeração, o prefeito desesperado. Um tumulto.

Ariovaldo. Sabia que estava morrendo, sabia que ia morrer. Nem a sirene da ambulância lhe dava esperanças…até porque não queria esperanças.

Preferiria morrer à voltar a trabalhar como gari. Não pela profissão, mas pela fama. Morreria no ápice, entre fotos e holofotes. Estava morrendo, mas mesmo assim sorria, um sorriso discreto, quase introspecto, mas um sorriso de satisfação.

Por uma obra nefasta do acaso, ele estava cercado por luzes e olhares. Eram seus quinze minutos de fama.

Ariovaldo. Já conseguira tudo o que mais desejara na vida, fama. Agora estava tranqüilo para morrer e morreu, mas morreu feliz.

Ariovaldo.

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