Homônimos

Mais uma antiga crônica minha que tento fazer ganhar vida…

morto e solitário

morto e solitário

Homônimos

Um dos maiores problemas da minha vida sempre foi meu nome. Não é feio, mas também não é bonito; é simplesmente normal.
Na escola havia no mínimo mais uns três com o mesmo nome e daí descambavam apelidos, diminutivos, aumentativos, sobrenomes e outras formas de não nos confundirmos quando alguém pronunciava nosso nome. Nunca gostei desta história de se falar um nome e três pessoas ao mesmo tempo atenderem.
Sei lá, acho o nome tão importante que ninguém mais deveria usá-lo, como o sobrenome, repetindo-o só e somente só entre seus descendentes.
A repetição de nomes no mesmo círculo social cria o conhecido “xará”, aquele colega seu que possui o mesmo nome que você.
Contudo, é importante frisar, o xará é diferente do homônimo. O xará possui apenas o nome idêntico, enquanto o homônimo é quase que um “gêmeo de nome”, ou seja, possui o nome e sobrenome iguais, o que causa uma confusão ainda maior.
Além disso, é possível conhecer dois xarás famosos, já homônimos famosos é um tanto raro.
– Vi um filme nacional muito bom com aquela atriz, a Fernanda…

– Montenegro?

– Não, a filha, a Torres.

Até no mundo esportivo os xarás estão presentes:

– Pô, ontem o Ronaldinho se machucou.

– Mas de novo! O Corinthians se ferrou…
– Por que o Corinthians?! Ele ´tá jogando no Milan…

– Ah, é do Gaúcho que você está falando, pensei que era do Ronaldinho Ronaldo.

– Não, é do xará dele, o outro Ronaldinho.
Os xarás se diferem dos homônimos em outra circunstância: os xarás geralmente se conhecem (ou não seriam xarás); já os homônimos dificilmente são apresentados um para o outro. Além disso, o homônimo, nas remotas hipóteses em que é apresentado para outro tem sérias crises de identidade; o xará nunca.
Certa vez, li em um jornal notícia que tratava da homonímia, o que me mostrou como estamos despreparados para ela, pois se o leitor não percebeu até agora, ela é traiçoeira e sádica, criando situações embaraçosas e constrangedoras somente para se divertir.
Segundo o jornal havia numa cidade do litoral da Bahia dois homens chamados José João da Silva – o que convenhamos, não é nada insólito – mas como a coincidência é irmã da desgraça, os dois eram brancos, de altura mediana e da mesma idade, nascidos inclusive no mesmo mês.
O primeiro José João, que aqui denominaremos José, era pescador, pessoa humilde, de parcos recursos. Era solteiro e não possuía filhos, morava sozinho e de aluguel, e sua propriedade mais valiosa era uma bicicleta. Contudo sempre se gabava por ser muito querido na cidade.
O segundo José João, que denominaremos doravante João, era um rico empresário carioca recém chegado à Bahia para aproveitar o setor turístico da cidade. Divorciado, também não tinha filhos e dentre seus bens podemos citar uma lancha, um jatinho e uma casa de praia, mas ainda não tivera tempo de fazer muitos amigos na Bahia.
Por obra infeliz do acaso, ambos morreram na mesma data. Os amigos de José colocaram uma nota de falecimento de destaque no jornal – pudera, era pessoa carismática e seria justo todos seus amigos darem o último adeus – o velório e o enterro seriam no Cemitério Municipal. Já João teve apenas a nota de falecimento padrão da funerária, condizente com o número de amigos na cidade.
Contudo, em outro gesto satírico do destino, um conhecido de João que passava uns dias na Bahia viu a nota de falecimento de José João da Silva, mas a do José.
Perplexo e pesaroso, ligou para os amigos comuns no Rio de Janeiro avisando-os da morte do colega, chamando-os para o enterro na cidade baiana.
Imediatamente, inúmeros amigos de João pegaram seus jatinhos – os que não possuíam alugaram – e se dirigiram para Bahia para prestigiar o enterro no Cemitério Municipal, o de José.
Enquanto o velório de José estava cheio, o de João, no cemitério vertical da cidade, comportava apenas três pessoas, dois funcionários da empresa um sobrinho que o acompanhava nas viagens (quem justamente fez os preparativos para um enterro digno para o tio).
Os amigos de José, simples como ele – vestiam chinelos com calças jeans e camisas já um pouco gastas – trouxeram com eles flores e muitas lágrimas para o velório, diziam-se chocados com a morte do amigo. Talvez porque não imaginassem o se seguiria.
À medida que os amigos de João chegavam no velório de José, os colegas de José estranhavam – o que fariam aquela gente vestida de terno naquele momento? O velho José nunca mencionara conhecer gente rica…
Da mesma forma, os conhecidos de João não entendiam como tanta gente sem classe presenciava o enterro do amigo.
Depois de algum tempo, com a sala do velório lotada de gente rica e pobre que se entreolhavam, alguém gritou:
– Este aqui não é o José João! – disse um representante dos “burgueses”.
Rapidamente um senhor de barba mal feita com hálito de aguardente se dirigiu ao caixão onde estava José e retrucou:
– Lógico que é o Zé!
Nisto foi aquele corre-corre, empurra-empurra para ver se aquele realmente era José João da Silva – o problema é que ao mesmo tempo em que todos estavam certos, todos estavam errados.
Convencidos que haviam sido enganados, os amigos de João procuraram aquele que os chamou para ir ao velório do amigo, e este coincidentemente acabara de ir embora tão logo percebeu a confusão que criara.
Certos de que o dinheiro não devia estar fazendo bem aos “engomadinhos e madames” presentes, os amigos de José preferiram não alguma tomar atitude mais contundente contra os intrusos e simplesmente permaneceram rezando pelo amigo que falecera.

E enquanto os amigos de João seguiam para casa com seus jatinhos irritadiços com a perda de tempo e pelo susto quanto ao amigo que na verdade devia estar em algum lugar do Brasil ou do Mundo são e salvo cuidando de negócios, José João da Silva, o João, jazia sossegado em seu caixão sem tumulto algum, da maneira mais serena que um recém falecido gostaria de começar sua pós-vida, amparado pelas palavras de José João da Silva Sobrinho, seu sobrinho:

Uma pena que seus amigos não estão aqui para se despedirem de você tio – mal sabia ele…

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