Romance noir

Tá certo, já está cansativo esse negócio de crônica antiga, mas não tenho tido tempo para escrever coisas novas, então, se contentem com essas…

um romance sempre faz arder

um romance sempre faz arder

Certos romances começam com um olhar, outros com um buquê de flores e a maioria com o primeiro beijo, mas o deles começou com um diálogo do alto de um edifício em Copacabana, onde tudo acontece, onde as pessoas se apaixonam…

Ela estava de calça jeans, baby look preta e os cabelos esvoaçantes. O vento batia em seu rosto e quase secava as lágrimas que escorriam. Era bonita.

Loira de olhos bem verdes, num rosto de traços leves, quase de menina, desenhados numa pela lisa, macia e bronzeada – como toda carioca – com contornos majestosos, lembrando, inclusive o Pão-de-Açúcar.

Ele estava de calça azul-marinho e blusa azul clara, cabelo batido, nada poético. O rosto fechado desenhava seriedade. Era esbelto.

O corpo atlético chamava atenção. Cabelos negros, olhos negros numa caricatura de Marlon Brandon no início da carreira (mas se tivesse nascido no Rio), suas palavras eram doces:

– A vida não é como está falando, há tanta coisa bonita, pessoas querendo se amar, crianças sorrindo, pássaros a cantar – apesar de pouco letrado, arriscava o verso, ainda que tosco, para encontrar um sorriso no rosto dela (nota do escritor, na verdade, este verso tosco não saiu da imaginação do autor, isto ocorreu mesmo).

– Sei que está tentando me animar, mas meu namorado me deixou, estou com o aluguel atrasado, desempregada e o Flamengo, e o Flamengo!!! – bradou ela revoltada com a vida.

Triste e desolada voltou a chorar, deu um passo à frente, aproximou-se da marquise e ameaçou pular:

– Não agüento mais, não agüento mais – repetia.

– Peraí! – gritou ele – e se nós tivéssemos um lance?

Agora a trinca estava formada: uma jovem querendo se suicidar, um policial apaixonado e um possível lance entre eles.

– Hã?! – exclamou com certa interrogação.

– Sim, um lance. Eu e você! Começaríamos a sair, você viria morar comigo, arranjaria um emprego, crianças, um lar, um amor…

– Mas e o Flamengo? – indagou.

– Ah, este aí…

– Num sei – disse em dúvida.

– Vem vai – com dengo.

E ela desistiu de pular.

Foi aquela festa, jornais vista em todo Brasil cobriram, a TV mostrou o primeiro beijo, foram entrevistados pela Hebe, pelo Jô, pela Gabi…

A vida dos dois agora era pública, menos aquele diálogo, o diálogo que fizera o amor se perpetuar no coração dos dois.

Ou não?!

Dois anos do fato, morando juntos, ela sem emprego ainda, ele endividado e o Flamengo na mesma, os vizinhos ouviram uma briga e dois tiros.

O mesmo policial que salvara Carol da morte agora era seu algoz.

E a busca dela pela morte – que fez Getúlio conhecer o amor – era consumada, só que por ele.

Getúlio, após violenta discussão com Carol, confessou que era vascaíno.

Durante todos esses anos sustentou-a em silêncio, amargou dívidas em silêncio, chorou e sofreu em silêncio, mas falar mal do Romário, ah, isso não!

Então, pegou sua arma, atirou em Carol e, arrependido, se matou em seguida. Às vezes, a vida imita a arte, outras a ironiza.

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2 respostas em “Romance noir

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