Apenas uma história familiar

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Ainda sobre o casal fujão, a notícia me fez lembrar a história de dois primos meus, o C. Pedro (chamávamo-lo de CEPEDRO) e o Derval.

C. Pedro sempre foi meio doidão, considerado o irresponsável da família, aquele que não queria saber de nada, não gostava de ir à escola, aprontava o dia inteiro.

Foi o primeiro da família a beber, o primeiro a transar, o primeiro a ser expulso da escola, o primeiro a agredir um velhinha (bom, nesse caso foi o único da família…).

– Estava no restaurante e fui ao banheiro, quando voltei aquela velha estava sentada no meu lugar, não pensei duas vezes, dei-lhe uma voadora – justificava C. Pedro.

Já Derval que era o mais velho dos primos, era o exemplo.

Sempre estudou, era o primeiro da classe. Não bebia, pois gostava de praticar esportes. Aliás, ganhou várias medalhas lutando judô. Era um orgulho para a família…e como os demais, nunca bateu em velhinhas.

Os pais de C. Pedro e Derval sempre os comparavam, sempre destacavam a superioridade escolar deste, suas façanhas esportivas, sua educação…

Desdenhavam de C. Pedro que dizia – “vou ser mais feliz que o Derval”

– Só se for em outra vida – dizia seu pai – se eu soubesse que você seria assim, ficaria só na punheta – reclamava o genitor.

C. Pedro se cansou. Não aguentava mais aquela falta de liberdade, aquela aprisionamento de costumes, não gostava de se sentir obrigado a seguir um padrão para tudo na vida.

C. Pedro dizia que o não gostava de estudar porque os professores eram chatos e que queriam que todos fossem iguais, não respeitavam que ele não gostasse de matemática, mas só de biologia.

Derval continuava sua sólida caminhada para o sucesso. Como era o mais velho, prestou vestibular para Engenharia na melhor faculdade do Estado.

Apresentou sua nova namorada em casa e dizia que após terminar seus estudos, pretendia casar.

Já C. Pedro, vivia sua batalha diária, sendo destratado pelo pai e comparado ao irmão que lhe dizia – “C. Pedro, não esquenta, o velho é assim mesmo. Eu te admiro muito e muitas vezes queria ser como você, só não consigo…!” – era uma declaração de amor fraternal, que C. Pedr não valorizava.

Um dia, lendo uma revista de viagens, C. Pedro viu sobre um cara que rodou o mundo com pouca grana.

Injuriado com a vida como estava, pensou, – “´taí uma coisa legal para se fazer!”

Arrumou uma mochila com algumas coisas, pegou um dinheiro que tinha guardado para o fim de semana, o saco de dormir e a barraca de seu pai e um canivete suiço (claro, todos que vão fugir de casa acham que é imprescindível levar um canivete suiço, mesmo que vá ficar hospedado num flat!!!).

Entrou no quarto do irmão, levou uma foto dele e o último troféu do campeonato de judô que vencera.

E fugiu de casa.

Sem destino, sem direção e sem dinheiro.

Deixara um bilhete para os pais.

– Gosto muito de vocês todos, mas o mundo é do tamanho das minhas emoções, nossa casa ficou pequena demais…

Nunca mais deu notícias.

Os pais ficaram desesperados, a polícia procurou, os amigos ajudaram, a família triste, enquanto Derval se sentia culpado pela fuga do irmão.

Até porque este, de vingança, teria levado seu último troféu.

Passou um mês, nada; passou um ano, nada, passaram dez anos, nada.

Derval se formou, se empregou, casou, fez doutorado, foi promovido, teve filhos, virou Diretor da empresa, comprou uma casa luxuosa, comprou um barco, comprou uma casa de veraneio, etc.

Trabalhou incessantemente. Não tinha tempo para os filhos, não tinha tempo para a esposa, não tinha tempo para férias, não tinha tempo para si.

Daí veio a traição. Traiu sua esposa.

Com a traição a separação, com a separação a divisão dos bens, as raras visitas aos filhos, a prestação dos alimentos, o excesso de trabalho.

Derval estava cansado. Mesmo assim trabalhava.

Após anos de lenga-lenga, ele a esposa voltaram. Estavam juntos, com os filhos, a vida melhorara, resolvera que estava trabalhando demais e que teria mais tempo para si e para a família.

Conversou com o Presidente da empresa, pediu férias, pediu para trabalhar menos. O Presidente consentiu.

Derval sorriu. Teria tempo para família, para ele mesmo, ficaria feliz. Pegou a esposa e seus filhos e foi para o Nordeste do país, queria passar um mês no litoral do Ceará.

E foi.

Depois de alguns dias, estava caminhando com seu filho mais velho e viu uma barraca de água de côco bem ajeitada.

Parou.

Começou a reparar na barraca. Tinha fotos de vários lugares do mundo, Pirâmides do Egito, Angkor Wat no Camboja, Uluru na Austrália, Glaciar Perito Moreno na Argentina, Montanhas Rochosas no Canadá…e outros vários lugares.

Avistou também um pequeno troféu, parecido com o que C. Pedro lhe levara. Arrepiou-se. Teria encontrado seu irmão. Como seria a relação entre eles.

De repente alguém apareceu para servi-lo.

– Pois não, brother.

Era?! Ou não era C. Pedro.

Era, ao menos parecia. Mas Derval resolveu não comentar nada.

– Oi. O senhor poderia me ver uma água de côco?

Parecia muito, mas a barba mal feita e os cabelos clareados pelo sol despontavam dúvidas. A pele mais morena talvez fosse em decorrência da praia.

– Peraí, mermã, já pego.

Resolveu perguntar.

– Amigo, qual é o seu nome?

– O que? Meu nome?

– É…é que você parece muito com um conhecido meu…

– Muita gente me fala isso…meu nome é Sassa.

– Ah tá, então deixa…gostei das fotos…você foi a todos esses lugares?

– Fui sim – respondeu enquanto servia o côco – resolvi dar um break nas obrigações e da um rolê por aí…voltei há pouco…uns 06 meses.

– Que inveja.

– Não, meu, não sinta inveja.

– Mas você rodou o mundo, vive com pouco, trabalha na praia, com gente bonita…enquanto eu sou vítima do meu trabalho e dos meus problemas…

– Mas você tem uma coisa que eu não tenho.

– O quê? Gravata?

– Não, você tem com quem compartilhar suas alegrias e tristezas…eu não tenho ninguém…

– Mas você tem o mundo, a liberdade, pode fazer as coisas como e quando bem quiser…

– É, porém, liberdade em excesso pode te aprisionar em solidão…

– Bom, obrigado pela conversa…foi interessante…minha esposa deve estar me esperando…ãh, obrigado, Sassa.

– De nada, Derval.

Derval virou as costas e rapidamente lhe veio à cabeça:

– Peraí, eu não te disse meu nome, disse?

– Não disse? Disse sim…

– Ah, então ´tá bom.

E assim Derval voltou para sua família no resort em que estavam hospedados enquanto C. Pedro, hoje Sassa, derramou uma lágrima de saudade da família.

Tinha feito de tudo na vida, tivera liberdade, conquistara muitas coisas…só não teve sua família ao lado para compartilhar esses momentos.

Enquanto cada um estava em seu canto, num circo a metros dali, um equilibrista passeava pela fina corda buscando terminar seu trajeto, sem cair nem de um lado, nem do outro, tal qual a tênue corda da vida.

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3 respostas em “Apenas uma história familiar

  1. Interessante a disputa das duas bandas de seu alterego. De minha parte digo-lhe que torço pela supremacia do Pedro, em detrimento do Derval. Talvez porque recorrentemente veja o meu Derval pessoal vencer com larga vantagem. O escritor, este mesmo, é o equilibrista no fim da linha, ou a equilibrar-se sobre a tênue linha. Belo conto, parabéns.

  2. Taka, você escreve histórias muito interessantes, criativas e de bom gosto. Através delas, expõe sentimentos e emoções, idéias e pontos de vista que talvez não consiga fazer no dia-a-dia.
    Um errinho aqui, outro ali, mas textos muito bons, tô gostando de ver!!!
    Mostre esse texto pro Gabriel Mochileiro Peregrino, do site, a história dele é muito parecida com essa.

    • Guilherme, valeu, por prestigiar, velho…
      e obrigado pelos elogios…
      alguns erros são decorrentes até de falta de verificação posterior…de vez em qdo me pego tendo que arrumar uma coisinha ou outra mesmo…
      abraços

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