Da Vingança

Hoje resolvi postar um brilhante conto de um amigo meu, Manoel Herzog, espero que gostem…

 

Da Vingança

pornoconto em honra a James Joyce

 

O homenageado, James Joyce

O homenageado, James Joyce.

 

Viu-se o advogado acometido, por aqueles dias, de um prurido no falo, vermelhidão ardida nos internos do prepúcio, que mais vermelhos e ardidos tornavam-se à fricção. Pegara da mulher, por certo. Coisa de fungos. Champignon, shiitake ou funghi secchi. Cogumelos que afloravam da noite para o dia em pau úmido e podre, tora de eucalipto na estufa, madeira leviana.

 

A pomadinha corticóide não vinha resolvendo. Chegou a pensar ser a cortizona a causa do ardor vermelhoso, suspendeu tratamento, esperou curar por conta. Nada. Só médico mesmo.

 

Compulsando a brochura dos conveniados ao plano de saúde foi que encontrou o nome de seu cliente, o médico urologista que tentara matar a esposa infiel. Mais fácil assim, pessoa conhecida. Ligou. Marcou. Foi lá. Três e quarenta e cinco a consulta, foi atendido às seis e cinqüenta e três. Médicos.

 

_ Olá como vai? Trocamos de lugar hoje?

 

_ Verdade, hoje sou o paciente. Tudo bem, doutor?

 

_ Tudo. O que acontece?

 

 

Explicou da maneira mais educada possível, constrangido, o que ocorria. Vaticínio do cura:

 

 

_ É um clássico caso de infestação fúngica. Candidíase. Cortizona devia curar, mas o negócio é recorrente. O senhor e sua esposa devem estar infectados. O fungo tornou-se resistente ao medicamento. Aumentemos a dose.

 

_ Doutor, eu quero registrar que é absolutamente impossível tenha eu contraído isto na rua, pois se tem algo de que me tenha privado este é o sexo, tanto na rua quanto em casa. Não que seja santo, mas um capão redimido por medo da mulher…

 

_ Perfeitamente. Isto são colônias que carregamos no corpo por uma vida, o senhor e/ou a esposa as cultivam. Mas esta falta de sexo em casa é que não é comum…

 

O médico, mesma idade que o advogado, padecia em casa da mesma inapetência. Ali dizia não ser comum, achava não ser comum para si outro tanto. Os médicos julgam-se incomuns, pensou o advogado.

 

_ Doutor, Doutor, temos que ver isso aí. À outra sala, por gentileza.

 

 

O advogado foi à saleta azulejada cabisbaixo, desafivelou cinto, baixou a calça social, sacou fraldas da camisa social, baixou a cueca social e segurou um quedo, sujo desde manhã e antissocial membro rubro. Incomodou-se por um cheiro lácteo-fermentado, gorgonzola, que suas narinas astrais sentiram exalar por conta do constrangimento. O médico nada manifestou, o cheiro era psicológico, só o sentia o causídico acuado. Ou de fato cheirava e o sentia o médico, mas era tão comum à sua rotina quanto as fotos dos cadáveres assassinados nos processos dos criminosos que o advogado defendia, negando o quanto pudesse as autorias. Depois de um tempo de carreira sublimam-se certas frescuras.

 

Nestas horas difíceis, em que se passa a pensar no improvável, o advogado lembrou da conversa com a  esposa sobre seu (dela) ginecologista.

 

_ Doutor Orlando é tão zen, tão bem humorado! Acho que nada tira aquele homem do eixo, que pessoa iluminada…

 

_ Minha filha, um cidadão cuja função no mundo é ver xoxotas o dia todo só pode ser zen e iluminado. Gostaria que você conhecesse um urologista cliente meu. O sujeito não é médico, é veterinário. Cara estressado! Quis matar a própria mulher! Apresentei uma continha de honorários, só faltou me bater. Pensa que trabalho de graça! Primeiro, fiquei com raiva, depois reconsiderei: afinal, o coitado passa o dia vendo pinto sujo e enfiando o dedo em cu de homem…

 

Nestas horas difíceis se passa a pensar no improvável. Improvável nada! Ali lembrou o advogado estar nas mãos perigosas de um a quem furara olhos. E nem se cogitava fosse o médico vingar-se cobrando caro, a consulta era coberta pelo plano de saúde. O troco viria por outra via. Viria via virilha venérea venial. Troco trocadilho:

 

_ Truco!

 

_ Seis!

 

_ Nove!

 

Danou-se.

 

 

O próprio paciente incumbiu-se de arregaçar mangas de glande, expondo a inflamação aos técnicos olhos do curandeiro.

 

_ Nossa, Doutor, que belo pinto!

 

_ Muito obrigado, muito obrigado, bondade sua…

 

_ Pode guardar!

 

 

Não se ofereceu ao jurista uma pia onde lavar os dedos que pinçaram a piça. O médico olhou de longe. Voltaram à sala de consulta.

 

_ Pois muito bem. O senhor vai usar esta pomada – escrevia – por sete dias. Nada de sexo ao período! O senhor gosta de se masturbar?

 

_ Sou contra.

 

_ Eu também: Onan pecador! De toda sorte, também não pode. Evite atrito.

 

_ Sim, senhor. Doutor, me permita uma pergunta, à guisa de confissão, olhe bem sua ética, sei coisas do senhor também, etc: acha que minha mulher trouxe isto da rua e me infectou?

 

Padeceria, o triste defensor, do Mal de James Joyce: achava que sua esposa, Molly Bloom, o traía. Padeceria, o malfadado acadêmico letrado, do Mal de Machado de Assis: julgava que sua esposa, Capitu, o enganava. Abriu a guarda, queixo exposto ao médico, que não teve dó:

 

_ Fosse o senhor um grande escritor, catalogava sua doença agora. Mas não, é homem comum. Não alimente esta dúvida – é bem possível que o senhor ou a esposa tenham pegado fungos na rua, ou no restaurante francês, italiano, japonês. De que lhe vai adiantar saber a verdade a esta altura?

 

_ Nossa!… O doutor é muito filho da puta!

 

_ Muito obrigado, muito obrigado, bondade sua! Continuando: penso que uma razão plausível para sua patologia pode estar associada à diabete. O doutor é docinho?

 

_ Meio amargo.

 

_ Meu chocolatinho gostoso! Faça um examezinho de sangue pra vermos! Tome a guia!

 

Pois foi nesta hora que o advogado, besta, julgando providencial a idéia, e econômica, solicitou:

 

_ Por que o doutor já não pede também um PSA?

 

_ Mas quantos anos o doutor tem?

 

_ Quarenta.

 

_ Nossa. Mas você está muito bem. Bonitão!… Papai foi prostático?

 

_ Morreu disso.

 

_ Mais casos na família?

 

_ Os cinco irmãos do meu pai e o meu avô paterno.

 

 

O rosto do médico se iluminou. Peruzão vermelho. O falo do advogado em grande escala, poste branco com aquele globo aceso inflamado no topo.

 

_ Permita-me dizer-lhe uma verdade: oitenta e quatro por cento dos casos de exame PSA negativo resultam em tumor de próstata de avançado estágio depois da metástase. Vai ter que fazer o toquezinho, neném.

 

_ Mesmo? Não há outro meio?

 

_ Não! Voltemos ao patíbulo, digo, à sala de exame!

 

_ Doutor, tenho compromisso, marcamos outro dia…

 

_ Absolutamente! Faço questão. É rápido.

 

 

Voltar não dava: ao patíbulo: putíbulo: prostíbulo. Prost correndo. Proust buscando. Tempo perdido.

 

_ O doutor pode tirar as bragas e subir àquela maca.

 

Assim fez.

 

_ Fico de quatro, doutor?

 

_ Franguinho assado, meu bem…

 

 

Naquela vexatória posição deitou o rábula, título já perdido, tampando os olhos com a gravata e contendo o choro. O médico-monstro, Mister Hyde, começou a engabelá-lo, massageando o colo do falo e o escroto.

 

_ Não precisa se constranger nem ter medo, é absolutamente normal e necessário, linda. Veja bem, esta massagem que faço vai induzi-lo a um relaxamento extremamente proveitoso para o fim colimado, aquele colibri está tentando entrar na janela, nossa, que céu bonito, viu a novela ontem?…

 

_ Opa!

 

Dedo dentro. Foi. Já foi. Quarenta anos de honra preservada, via de mão única, ora invertida, infamante, nojenta. Sensação estranha. Flanar no vácuo, espaço sideral. Astronauta. Coisa estranha: “Seu pai morreu!”, “Não sinto nada…” Não se inteligem certas coisas na hora.

 

Teria estático restado por tempos fosse o dedo violador imóvel. Mas não. Deu de vasculhar território, giratório, cento e oitenta graus de malvadeza, deu com uma pedra dura, barbatana de tubarão, calcificação de unha. Próstata bichada.

 

_ Doutor, está doendo!

 

_ Calma, é assim…

 

 

Vasculhou até topar. Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra. Pedra-doença, tumor estrangulando uretra. Prensou a pedra sem dó, lágrimas jurídicas judiciosas vertendo, molhando colarinho e gravata. Cagou-se o causídico ao dedo do médico. Não pode conter a urina outrossim. Desmanchou-se, aniquilou-se. O dedo foi então sacado da aliança, cerrou-se o conúbio sádico. Desenrolou-se uma luvinha de dedo sujobronzeada, estrategica e discretamente jogada ao cesto sob a maca, embrulhadinha em papel-toalha.

 

_ Há um inchaço incomum na sua próstata, vou encaminhá-lo à biopsia…

 

Melhor tocar um tango argentino.

 

O médico outrora vingativo convertera-se num monge doce e tímido, arrependido curador, tinha á frente um doente invadido e indignado. Doente de fato, coisa séria. Escreveu nova receita já de cabeça baixa, sem fitar os olhos do jurista. Olhavam ambos ao chão espelho de tacos encerados, lá foi que os olhares cruzaram. Vergonha mútua, “perdão, meu irmão”. “Não queria sua condenação…”, mutuodisseram.

 

_ Adeus.

 

_ Adeus.

 

 

O advogado saiu do consultório atordoado, entrou no táxi.

 

_ Pra onde vai, queridão?

 

_ Qualquer canto. Toca esta merda.

 

 

Foi meio que inconscientemente guiando o taxista até sua casa. Tomou um calmante e dormiu, amuado. Passou o dia seguinte inteiro sentindo-se culpado pelo que tinha feito a seu pai.

 

 

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