Pato Lógico

um Pato Lógico!

Um Pato Lógico!

Pato Lógico

Esta é uma homenagem a um dos grandes livros da Literatura Mundial, A METAMORFOSE, de FRANZ KAFKA.

Quando nasceu,percebeu que alguma coisa estava errada. Mal abrira os olhos e viu que era diferente dos demais.

Não na aparência, o aspecto físico era o que menos importava, mas sim o que passava na sua cabeça. Olhou para o lado, sua mãe não falava, muito menos seus irmãos. Não conseguia entendê-los, aqueles “quac-quac” eram horríveis.

Tentou imitá-los:

– “Cuaque” – não conseguiu.

Seus parentes não o tratavam mal, muito menos com indiferença…os patos não sabem o que é indiferença.

Saiu dali, mesmo recém nascido dirigiu-se à cidade.

Entrou numa livraria, haveria uma explicação. Olhou, folheou, procurou…pensou ter achado, mas não. Ele era muito parecido com um pato para ser um cisne. Pegou outro livro, novamente sem sorte. Não conhecia nenhum Walt Disney, e muito menos se vestia com roupas de marinheiro.

Procurou no dicionário, pateta, patético, político…não, era mesmo um pato. Só não entendia como conseguia ler, falar, ter sentimentos, dúvidas etc.

Por que ele, justamente ele, seria diferente? Seria algum dom? Talvez fosse ele o marco inicial da evolução genética dos patos que futuramente seriam classificados como “patos sapiens”…largou o livro de Darwin e seguiu para a lagoa, estava de saco cheio, mesmo sem saber o que isto significava.

Antes mesmo de sair da biblioteca foi abordado por um senhor barrigudo, de bigodes e cartola. Vendo todo aquele corpanzil na sua frente pensou – “quem nesta década ainda usa cartola?”.

O homem interrompeu seus devaneios e perguntou a ele:

– Você lê?! – perguntou muito surpreso.

– Se você usa essa cartola ridícula, qual o problema em ler?– respondeu com tranqüilidade.

– E ainda fala?! – mais perplexo.

– Claro eu…

Pegou nos braços o pato que nem terminara a frase e tentava, sem a possibilidade de um justo duelo, tentou bicá-lo para se defender, mas em vão. O barrigudo de cartola o levou para sua casa.

Colocou o pato em seu gabinete e disse a ele:

– Não saia daí, vou levá-lo à TV.

O pato não reclamou, sempre quis ser famoso, afinal era um pato, não um burro.

Todavia, curioso, após o barrigudo dar uma saída, começou a perambular pela sala da casa.

De longe avistou um boneco de madeira, com nariz grande e que se não estivesse de vestido e cabelos loiros com uma longa franja cobrindo os olhos, ele poderia jurar que era o Pinóquio.

Mesmo assim perguntou:

– Pinóquio?

– Sou eu sim, o que quer, querido?

– Não é que…Com essas roupas não lhe reconheci…

– Ah, gostou? Depois que fui comido pela baleia ao ajudar o Gepeto, minha vida mudou.

– Mas e… – o pato preferiu deixar pra lá.

Virou-se e encontrou o que queria. Uma TV.

Ligou-a, ficou assistindo um programa qualquer cheio de crianças com uma apresentadora loira. Mudou de canal, mas parecia o mesmo programa, só que com outra apresentadora. Insistiu, mudou mais uma vez e a mesma coisa. Ficou puto, quer dizer, pato!

Mudou de canal, era uma tal de TV Senado, achava estranho porque só viu pessoas de terno e gravata, numa grande sala, tratando-se por Excelência pra cá, Excelência pra lá, mas viviam bringando entre si e se ofendendo.

Injuriado, mudou novamente. TV Justiça. Agora eram onze vestidos de preto que discutiam entre si, também tratando um ao outro por Exa., não entendia, parecia tudo igual!

Indignou-se. A TV não era tão legal como diziam…desligou-a.

Sentou-se. Precisava descansar.

Começou a lembrar de sua família, estava com saudades da mamãe, dos irmãos, da lagoa…pela primeira vez sentiu-se um pato.

Condenava-se por conseguir pensar, sentir e falar, queria ser simplesmente um pato normal. Não imaginava como os humanos conviviam com isso: viver e pensar ao mesmo tempo, a vida não fôra feita para ter dúvidas, dilemas, problemas…a vida fôra feita para viver!

Realmente seu maior desejo era ser apenas um pato, um pequeno e desprezível pato. Não um Patinho Feio, nem um vestido de marinheiro, só um pato. Daria tudo para emitir um simples “quac”.

Mundo cruel!

De repente, acordou, viu que tudo não passara de um sonho, nada era real, poderia levar sua vida normalmente porque, afinal, era um pato, lógico!

Muitas vezes tentamos ser alguém que não conseguimos, muitas vezes tentamos mudar para agradar às pessoas, seria muito mais fácil se nos aceitássemos como somos, com nossos erros, defeitos e limitações, ainda que sejamos somente patos, desde que felizes!!!

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Uma resposta em “Pato Lógico

  1. ahh..perfeito!!!!

    Num conto simples tu traduz tantos dilemas das cabeças pensantes…
    Eu queria ser uma pata!rs
    Parabéns pelos textos..sempre!

    beijo grande!!

    **deixa eu continuar minha maratona BLog-Taka! =*

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