Marcelo e o gato

Marcelo e o gato

o gato

Uma rotina, dia após dia num sacramental rito vive Marcelo. Quase tão comum que poderia ser a vida de qualquer pessoa, mas por um mero detalhe, é a vida dele.


É dono de um gato. Não um gato comum, mas sim uma mistura de jabuti com filhote de onça. O bichano é gordo, bem redondo, chegando a pesar uns 8 quilos. Além disso, é irritadiço, arredio, bravo; evita chegar perto das pessoas, e as pessoas dele. Carinhos? Só para Marcelo.

Em relação à fidelidade, estivéssemos falando de Pinóquio, seria o Grilo-falante, afinal é super prestativo com o dono, dando-lhe, nas devidas proporções, conselhos para viver melhor.


Fruto de uma condição para herdar um apartamento do tio rico, o gato sempre se mostrou um estorvo para Marcelo. Até que tem boas intenções, mas não sabe quando parar, quer agradar, deixar seu dono feliz, mas não sabe como.


A tortura começa de manhã, uma leve coceira no nariz ou na orelha, sucessivos espirros por causa da rinite crônica, um mau cheiro de gases no ar e os primeiros miados de Clóvis que, carinhosamente, traz o jornal toda manhã para seu dono, quer dizer, tenta, pois é tão gordo que vai deixando alguns cadernos pelo caminho…e quando é domingo então? Marcelo tem que acudi-lo toda manhã sufocado pelo peso do jornal, pesado demais para carregá-lo.


Antes de ir para o trabalho é um sofrimento, o gato, após estar todo molhado pelo seu leite matinal, seca suas patas justamente na calça de Marcelo, justamente a que ele colocaria para o trabalho, e este grita e repete, sem efeito algum – “minha calça limpa, minha calça limpa! ‘Cê sujou, ‘cê sujou!!!” – enquanto o intrépido gatuno retira-se em meio à gritaria de seu dono, sem nada entender.


O gato tem um certo estrelismo, parece mais interessado em ser um gato famoso, como Garfield ou Félix…não percebe que é só um gato…


Quando Marcelo chega do trabalho, então, a coisa é pior…a bola felpuda já urinou no quarto inteiro, “assinou” a parede com suas patas e, sem piedade, arranhou o criado-mudo. Destruir os travesseiros não, Clóvis nunca fez isso…não depois que Marcelo deixou de comprá-los.


Trazer visitas pra sua casa então nem pensar. O anti-social felino já provocou cenas de barbárie entre os amigos de Marcelo. Rasgou vestidos, arranhou bochechas, assustou crianças ou simplesmente teve acessos de loucuras correndo pela casa toda miando e pulando sem parar, um insano.


Mas por um infortúnio da vida, num dia qualquer – sim, pra que dizer trágico, nefasto, sombrio; não, nada disto, foi num dia qualquer e ponto, quer dizer, vírgula no caso – o inesperado aconteceu.


O gato sumira. Desaparecera. No populacho: “evaporou”.


Inicialmente Marcelo alegrou-se. Nada mais de sujeira, espirros, calças estragadas…mas por um instante, parou…pensou melhor…refletiu…lembrou de toda convivência com o gordo felino. Um filme passou pela sua cabeça, e o melhor, sem legendas. Ele e Clóvis, Clóvis e ele…sim…neste momento teve consciência do que acontecera…e saiu pela casa aos gritos de viva, feliz da vida por não ter que cuidar do gato mercenário…

Às vezes não percebemos que somos reféns de certas situações – sejam relacionamentos, emprego, família, etc -, que só nos fazem mal, mas  o medo de nos desprendermos e arrependermos criam uma barreira contra nossa própria felicidade, contudo, se por qualquer motivo essa tal situação se dissipar, vemos que era só medo e que estamos muito melhor agora e que sempre nos faltou coragem…só isso!

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