Desapego

Desapego

Uma das palavras mais lidas nos livros de auto-ajuda, ditas por doutrinadores de algumas filosofias de vida e religiões, relatadas por aventureiros e viajantes e até por aqueles que são efetivamente materialistas mas querem parecer simples e descolados é DESAPEGO.

Ser desapegado virou sinônimo de ser espiritualmente elevado, como se fosse um iluminado perante o restante dos pobres materialistas que sofrerão de angústia pelo seu apego.

Hoje em dia não basta ser desapegado dos objetos de desejo e consumo, o verdadeiro desepegado é aquele que se despe também de coisas como  a profissão, amigos, família, pessoa que ama, da própria vida  e até, acredite, seus bichos de estimação!

Eu realmente concordo que as pessoas devem ser desapegadas, busco sempre me repreender quando vejo que estou sendo excessivamente mesquinho e materialista porque, creio, o apego é irmão do egoísmo e primo da ganância, mas nem sempre consigo e muitas vezes sou vencido.

É ncessário explicar é que desapego não quer dizer falta de consideração, carinho ou amor por alguém ou por algo. Desapego neste caso é não se tornar escravo de suas vontades, não se submeter a seus desejos, mas sim viver sabendo que tudo na vida é precário e um dia irá se desfazer, você perderá aquilo que se apegou por anos, até a própria vida.

Não vale à pena escravizar-se por uma namorada, por um carro, por uma promoção no trabalho, por uma aposentadoria recheada ou até por uma viagem incrível, pois isso remonta a angústia, sofrimento e sensação de impotência, porque nem sempre conseguimos tudo o que desejamos.

É claro que se pode ter um carro, mas não é preciso que seja um puuuta carro, é claro que podemos fazer uma incrível viagem, contanto que não fiquemos tristes porque não demos a volta ao mundo, é ótimo querer um aumento ou promoção no trabalho, mas não se deve esquecer da sua vida social e da saúde para passar a vida trabalhando…é fácil compreender…mas difícil exercer…

Certa feita me contaram a história de um sujeito que trabalhava demasiadamente, pois queria chegar a diretor da empresa onde trabalhava. Vivia brigando com a namorada, não a deixando fazer anda porque ela deveria a queria sempre ao seu lado e era extramamente ciumento. Não deixava que ninguém pegasse suas coisas e não faltava a nenhum jogo de seu time de coração, o Corinthians (é, o cara não fazia boas escolhas…).

Num desses dias, Eduardo (esse era o nome dele ou se não era, criei agora um fictício, beleza?) sentado em seu escritório entre a fumaça de seu cigarro, o som dos passos acelerados dos demais funcionários e os celulares tocante incessantemente, resolveu pegar uma bala daquelas que vem com mensagem na embalagem.

Nunca lera uma só mensagem, mas resolveu dar uma olhada no que aquela dizia. A mensagem era simples, sucinta e direta.

“A vida não é só isso!”

Parecia que a mensagem fora escrita para ele, parecia que ela entendia o vazio que ele estava sentindo, parecia que era algo que viera para mudar completamente sua vida…e mudou.

Eduardo passou a ler livros de auto-ajuda, a freqüentar diversas religiões, começou a fazer sessões com psicólogas e terapêutas, foi a reuniões de alguma coisa anônimo para ver se se encontrava…

Viu que todas diziam que deveria se despir das coisas materiais, da necessidade de desapegar-se das pessoas e bens, que deveria parar de se escravizar por tudo isso…ele compreendeu, praticaria o desapego.

Largou o emprego, vendeu tudo o que tinha, doou grande parte do dinheiro e foi em busca de uma vida mais simples. Alugou uma casa no interior, não tinha nem luz, passava o dia meditando, comia só o necessário.

Passados alguns meses, não se sentia devidamente completo, ainda sentia um vazio – que poderia ser a fome, vez que perdera 15kg em 05 meses -, decidiu que precisava de mais desapego.

Comprou uma barraca de camping e foi viver na mata selvagem, viveria da própria natureza, afinal, se o homo sapiens conseguiu, por que ele não conseguiria?

Pouco fazia dentro da barraca, ficava lendo e relendo alguns livros, caminhava quase que o dia inteiro, bebia água do rio que estava próximo e comia pouco, quer dizer, comia quando encontrava comida, até porque já acreditava que não era tão necessário assim comer, tratava-se de uma fraqueza dele, um apego à comida!

Certo dia, caminhando, sentiu uma tontura, uma fraqueza, sua vista estava turva, pensou que estava encontrando a iluminação, mas não, estava desmaiando mesmo…

Dias depois, já medicado, acordou no hospital e viu que aquele lance de desapego nao estava com nada, que tinha perdido seu tempo e tudo mais…

Como estava internado e sem qualquer dinheiro, ligou para seus pais virem lhe buscar, mas haviam se mudado e ninguém sabia onde estavam, ligou para seus amigos, mas todos disseram que não podiam, ligou para sua ex que quase o estrangulou pelo telefone…tudo em vão.

Conversou com a diretoria do hospital que permitiu que deixasse o quarto, contanto que deixasse os últimos R$ 50,00 que tinha na carteira.

Andou pela cidade em que estava pedindo algum auxílio para voltar pra casa, se é que haveria alguém em casa…só arrumou R$ 5,00 que deu apenas para o lanche do dia…

O desespero passou a tomar conta dele, Eduardo agora estava realmente sem nada, sem dinheiro, sem família, sem amigos, sem trabalho, sem qualquer coisa que o escravizasse, mas não estava feliz…viu que na ânsia de se tornar um cara desapegado, escravizou-se tanto por isso que acabou se apegando ao desepago (?!)…e agora queria sua vida de volta…

Só agora ele vira que a vida não era só isso…

Eduardo não era Sidarta…

um Buda, sinônimo de desapego...

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Uma resposta em “Desapego

  1. Eduardo é sidarta em potencial! Nós todos o somos! Contudo em sua tentativa ao desapego,faltou o último! O desapego a sí mesmo!.

    “Quem ama mais a si mesmo que a mim, não é digno de mim!”
    (Cristo)

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