MINHAS VIDAS PASSADAS 01 – vida de mendigo

Inauguro agora mais uma série de crônicas.

Esta série é diferente…tratam-se de crônicas de algumas lembranças de minhas vidas passadas.

´Tá certo, eu sei que muitos não acreditam, outros nem se recordam das suas vidas anteriores, mas Deus quis assim e pronto…por sorte ou azar (porque lembro até das merdas que fiz em outras vidas…e foram muitas!), eu tenho algumas recordações de outras vidas que passei e por isso, resolvi compartilhar aqui com vocês.

A primeira é sobre minha vida de mendigo…segue:

Vida de mendigo…difícil de se viver…

Essa vida eu vivi não há muito tempo…creio que deve ter sido minha última vida antes desta, pois pelas lembranças que tenho, já havia automóvel, televisão e essas coisas que mendigo só conhece de olhar.

Clarqui Osório de Souza era meu nome.

Sim, como vim de família pobre, claro que meus pais optaram por um nome em inglês…eu não sabia de onde tinha tirado este nome, mas depois, já nesta vida, comecei a suspeitar que era por causa do Clarke Gable…

Morava em Tibagi, no Paraná.

Muito novo fui trabalhar na rua…era um serviço de transporte de coisas…eu tirava o dinheiro do bolso dos outros e transportava para o bar do seu Odair, onde tomava minhas pinguinhas.

Certa feita, tentei praticar este meu serviço diante do cara mais forte da cidade – mendigo também tem vaidade, imaginem como seria eu dizendo para os demais que roubara o Neguitão?! Seria um astro e talvez até ganhasse uma garrafa de Pitu! -, só que o cara além de forte, era malandro…

Ele percebeu que estava tentando surrupiar sua carteira e aguardou até que eu a retirasse do seu bolso, daí, soltou um grito:

– Ah, mendigo safado!

E saí correndo…só que você sabe…

Mendigo já é um sujeito desafortunado por natureza e por Obra Divina…quando comecei a correr, minhas rasgadas e velhas calças começaram a escorregar pela minha cintura e dificultar meus passos, mas ainda trôpego consegui me esconder numa viela.

Neguitão apareceu na viela e começou a bradar:

– Clarqui, se eu te achar, eu quebro você, seu miserável!

E eu quieto…nem respirava…

Só que nisso, um pequeno ser passou a me procurar também!

Todo mundo sabe que o cachorro é o melhor amigo do mendigo antes mesmo que do homem comum…e do nada, meu cão, Dão (de Fedidão), apareceu do nada pulando na viela, todo feliz e foi direto até as caixas de papelão onde me escondia!

Nem o rabo abanando de Dão amenizou a dor dos socos e pontapés que levei de Neguitão…e, claro, fiquei sem a grana dele.

A partir daí, passei simplesmente a pedir dinheiro nas ruas…o que tornou meu sustento mais difícil!

Vida de mendigo não é fácil.

Muitos dias eu tinha que escolher entre passar a pão e água ou só o pão ou só a água, porque não tinha grana para nada.

E nos dias de chuvas então? Procurava por viadutos e pontespara me abrigar, mas quase sempre passava frio e acabava molhado.

O pior de tudo era o cheiro. O meu fedor e dos outros mendigos era insuportável! – claro que eu sentia nojo, mas não tinha opção, lembra? O foda é que ainda tenho a memória olfativa, então, de vez em quando fico até enojado!

Mas a pior sensação que eu sentia na minha vida de mendigo era o fato de parecer  invisível.

Sim, porque muitas vezes eu estendia a mão pedindo uma moeda e era ignorado, clamava um pouco de comida e não olhavam para mim, implorava por um pouco de água e parecia que não existia.

Muitas vezes até me questionei se eu não estava me imaginando…mas daí, minha barriga roncava de fome e via que estava vivinho da silva…e faminto!

Foi a partir daí que comecei a mudar meu estilo de vida…ao invés de parar e pedir comida, água ou um trocado, já chegava nas pessoas na sinceridade:

– Senhô, pode me dar uns trocados?

– Você quer que eu compre um pão para ti? – alguns questionavam.

– Olha, meu, vô sê sincero cuntigo – não são erros de português, era apenas como eu falava – não ´tô pedindo para comida não, é pra cachaça mesmo, ´tô falando a verdade pro senhô porque a danada é difícil de largar…dá um dinheiro para minha pinga!

– Pô, é claro que eu dou, sendo sincero assim!

E era assim que conseguia uns trocados a mais para, na verdade, comer um pouco melhor…graças a benevolência dos transeuntes com meu “vício”!.

Legal foi o dia que morri, fui até promovido…

Lembro que tão logo minha alma estava saindo do meu corpo, ouvi as pessoas dizendo:

– O dono do fusca atropelou um indigente…

É, vida de mendigo é assim, enquanto está vivo é mendigo, quando morre, passa a ser indigente…pelo menos no nome ficquei mais bonitinho!

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