Amar e ser feliz

Foi instantâneo.

Não foi amor à primeira vista, pois já haviam se visto algumas vezes, foi amor ao primeiro beijo.

Lucas e Karina frequentavam as mesmas aulas de teatro e se conheceram lá mesmo.

Lucas era instropecto, entrou no teatro para tentar ser menos tímido, menos fechado.

Karina era o oposto. Falante, simpática, iluminava as pessoas ao seu redor com tanta energia.

Nunca haviam notado direito um ao outro, porém, o destino – esse fanfarrão – lhes colocou frente à frente como protagonistas numa das peça que teriam que encenar.

E pior, seriam par romântico.

A peça era sobre um romance e coisa e tal e isso não importa…importa que em dado momento que era necessário que Lucas beijasse Karina…e este o fazia sem volúpia, seja por medo, por vergonha ou porque era frouxo mesmo.

Toda hora a cena era criticada pelo diretor-professor que mandava repeti-la.

Certa feita, Karina se enfezou, virou para Lucas e resmungou:

– Vou ter que te ensinar a fazer mesmo, né?

E tascou-lhe um beijo hollywoodiano, daqueles que só faltou ele levantar um pézinho para trás…

Daí para frente, foi só amor.

Karina se enfeitiçou pelo cativante jeito tímido de Lucas e este se rendeu aos encantos sórdidos daquela que parecia a mulher perfeita para ser amada.

E passaram a namorar.

Namoraram por seis meses.

E resolveram casar.

Casaram.

Tudo ia bem, tudo ia lindo, tudo ia perfeito.

E assim foi. Ambos estavam felizes com o relacionamento e nada podia lhes separar.

Um ano de casado e fizeram uma festa para os mais chegados, beberam e brindaram à felicidade.

Karina ainda era atriz e agora também modelo.

Lucas largara as aulas de teatro, não levava jeito para aquilo mesmo, passou a trabalhar com contabilidade.

Viviam uma vida normal, sem aparentes problemas, algumas discussões, óbvio, algumas rusgas, mas nada que abalasse a situação do casal.

Veio o segundo ano de casamento e outra festa.

Brindaram à harmonia do casal, pois conseguiram reverter algumas diferenças sem que entrassem em choque; Karina ficou um tempo desempregada, mas Lucas deu uma força; coisas pequenas aconteceram, mas a relação deles não era frágil.

E assim seguiram a bela vida de casados.

Veio o terceiro ano…outra festa, agora menor…só para família.

– Ah, festa dá muito trabalho – reclamava Karina.

Desta vez, brindaram à tolerância porque desta vez ambos tiveram que se conter pois fora um ano difícil.

Novamente Karina desempregada; Lucas trouxe seu irmão para passar “umas semanas” que viraram três meses na casa deles; Karina o criticou quando comprou um notebook novo sem avisá-la; e as brigas começaram.

– Quem toma conta do meu dinheiro sou eu – bradava Lucas.

Karina se sentia ofendida, não era para ser assim, não precisava ser assim.

Mas superaram, superaram tudo isso graças à tolerância de cada uma, por isso brindaram à tolerância.

Viveram mais um ano juntos, nem fizeram festa para o… – “quantos anos mesmo de  casados nós temos, amor?”

Nem brindaram à nada.

E as brigas, discussões e diferenças, viraram quase que um apedrejamento sumário.

Qualquer coisa dita num momento inadequado, qualquer palavra colocada de forma dúbia, qualquer tom de voz mais alto, já era motivo para um dia inteiro de verdades nunca ditas – ou já repetidas várias vezes – e ameaças de separação.

E como vocês sabem, após a sogra, o tempo é maior inimigo de um relacionamento, vencendo a falta de dinheiro, a infidelidade e ausência sexual!

O tempo é mais cruel que um torturador, porque você o vê despedaçando tudo aquilo que construiu por minúsculos motivos, por questões imbecis, mas ainda assim, não consegue se segurar e continua destruindo seu relacionamento.

Um dia, Karina chegou em casa chorosa.

– O que foi, meu amor? – indagou Lucas

– Querido, sabe a entrevista de emprego? – ela respondeu a pergunta com outra pergunta.

– Sim, sim e como foi?

– Então, meu amor, não consegui…falaram que não tinha o perfil para a vaga… – e voltou a chorar.

Lucas passou a consolá-la…afagou sua cabeça e lembrou de todos os grandes momentos que viveram juntos e quase chorou…

De súbito, Karina levantou a cabeça e perguntou a Lucas:

– Você ainda me ama, Lucas?

– Claro que eu amo, claro que te amo muito, Ka!

– Pois é, eu também te amo demais…

– Então, temos nossas diferenças, mas…

– Mas você está feliz? – Ela o interrrompeu.

– Feliz? Eu? – titubeou… – É claro que estou, estou com você e…

Novamente foi interrompido.

– Quim – como ela o chamava carinhosamente -, eu sei que você não está feliz, eu não estou feliz também.

Lucas abaixou os olhos, abaixou a cabeça, deixou cair uma lágrima…olhou novamente nos olhos de Karina e concordou:

– Você tem razão, não estamos felizes.

Conversaram, entraram em acordo com as coisas da casa, abraçaram-se fortemente, despediram-se e cada um seguiu sua vida…

Amigos, amando-se ainda, claro…e foram felizes para sempre, até um outro relacionamento…

O amor nem sempre é felicidade!

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