Um vilão chamado Tetéu!

 

Odete Roitman, uma das vilãs mais famosas de nossas novelas!

Estava bebendo num bar num canto do bar, barba por fazer, boné na cabeça cobrindo os olhos, camiseta larga…sozinho e quieto, já mirava o copo há dez minutos e não dava um gole.

Do outro lado do bar eu via esta deprimente cena e tentava entender o sujeito.

Passei a observá-lo e reparei que tinha um rosto conhecido na cidade, sim, parecia o…, o…, o…não, não era possível! ´Tá certo que eu voltara à cidade há pouco mais de um mês, mas nunca deixaria de reconhecê-lo.

Levantei-me e fui em direção à mesa do solitário beberrão, cheguei perto e perguntei:

– Tetéu???

Tetéu era o nome do zagueiro do time da cidade. Ele não era só um zagueiro, era o Zagueiro, com Z maiúsculo. Além disso, Tetéu era também o nosso capitão, sim, o capitão do time e ídolo em toda cidade. E para nosso orgulho, Tetéu era filho da terrinha, conhecido de todos nós, crescera como torcedor e hoje era ídolo dos torcedores.

Tetéu levantou a cabeça e com o rosto desolado ainda tentou sorrir…mas em vão…sua expressão triste e amarga o denunciava.

– O que aconteceu, meu zagueiro? – questionei.

Como quem não quer papo e tal qual a mulher da gente, Tetéu respondeu – nada, não!

Todos sabem que quando alguém fala que não tem nada, é porque tem.

– Pode dizer, meu capitão… – insisti.

– Capitão, capitão… – repetiu ele quase que murmurando.

Se não quiser falar… – eu dizia, mas geralmente quando você fala para a pessoa que está tudo bem se ela não falar, daí o cabra começa a desembestar!

Eu não sou mais capitão de coisa nenhuma – passou a reclamar – agora, nem do time eu sou, nem reserva…

Agora tinha uma explicação, nosso ídolo fora sacado da equipe.

– Mas o que aconteceu?

– Eu perdi o pênalti na final contra o Ferroviário!

“CONTRA O FERROVIÁRIO?! PERDEU O PÊNALTI?! TEM MAIS É QUE MUDAR DE CIDADE!!!” – pensei, mas aquele, ora, aquele era o capita que tantos títulos nos dera!

E ele continuou – “e daí não consegui mais jogar…entrava em campo vaiado; pegava na bola, era vaiado; fazia gol e a torcida não comemorava…até minha mãe de xingou de filho da p…quando errei a cobrança, acredita?!”

“Acredito” – pensei, mas só pensei…na verdade eu lhe disse – Tetéu, meu eterno capitão, sabe o que está se passando com você?

– Sei sim, uma tragédia!

“Bom, quase” – pensei mais uma vez…pra falar a verdade eu também queria esganar o cara, mas continuei sendo legal – não, não, você é alvo agora do que chamo de síndrome de vilão de novela da Globo!

– Síndrome de vilão de novela da Globo?! – perguntou sem entender nada.

– Sim, sim, isso mesmo! Você passou a carreira dando alegrias e enquanto agradava à torcida, era Tetéu, nosso capitão…daí, foi só errar o pênalti, ou seja, desagradou a torcida, pronto, virou o bandido. E a partir de agora, todos esquecem suas qualidades, a partir de agora você só tem defeitos…e nas novelas da Globo é assim, o vilão é só vilão, não tem qualidades, só defeitos, é pura maldade e todos os espectadores o odeiam! – filosofei.

– Pô, foi isso mesmo que aconteceu comigo…

É, pois, é…isso já aconteceu comigo também…em outra situação, é claro, mas já aconteceu… – respondi vagamente lembrando de uns episódios da minha vida.

– Então você sabe o que estou sentindo…e o que fez para sair dessa? – indaogu meio eufórico como se eu tivesse a panacéia de todas as mazelas da humanidade!

– Eu? Deixei pensarem isso…no começo me incomodou, é verdade, mas depois vi que não adiantava discutir…estavam totalmente decididos a pensar assim e deixei, relevei…e segui minha vida…

– E funcionou?

– Não sei…mas eu ´tô bem comigo mesmo…

– Será que se eu ignorar as críticas, esquecer o que passou e tudo mais, terei confiança para voltar a jogar…

– Sim, claro, claro que sim! Você é o nosso eterno ídolo, Tetéu! Nosso capita!!!

Vi até o rosto de Tetéu iluminar-se como se se desfizesse uma aura negra que o cercava, vi em seus olhos uma gana de jogar e vencer novamente que devia estar perdida, vi a vontade de dar a volta por cima…fiquei feliz, ajudei Tetéu a sair dessa…

– Obrigado, obrigado, meu…nunca mais me esquecerei disso… – agradeceu feito uma criança e em seguida em lhe falei:

– Ah, de nada, Tetéu, só mais uma coisa que estava pra lhe falar…

– Sim, pode dizer, você pode…

– Tetéu, perder pênalti contra o Ferroviário não, né?! É de foder com qualquer um!!!

Virei as costas e fui embora do bar sem falar mais nada…desculpem, mas não resisti…contra o Ferroviário não, né?!

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2 respostas em “Um vilão chamado Tetéu!

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