UM BRINDE À AMIZADE

Portuga batendo no peito e dizendo: "eu sou o Portuga!"

Portuga batendo no peito e dizendo: “eu sou o Portuga!”

– E hoje, hein?

Era assim que quase todos os dias que Portuga se dirigia aos amigos pelo grupo do whats app para marcar de fazer algo, normalmente um chopinho no Heinz, um bilhar, um açaí no D´Boa, um almoço no Tasca do Porto, qualquer coisa que o tirasse de casa e o fizesse encontrar com seus amigos.

Ele sempre fora um cara que gostava muito dos amigos, mas de um tempo para cá estava sempre pilhando seus amigos para sair, parecia mais carente que o normal. Como estava desempregado, os amigos atribuíam a isso sua necessidade de fazer algo todos os dias.

Quando ninguém se manifestava, Portuga ficava fulo da vida, quase dançando um vira de tão bravo. Um ranzinza!

– Pô, gente, estou há mais de uma hora tentando marcar algo – lamentava – grupo cansado – reclamava.

Depois de algum tempo seu bordão virou motivo de piada entre os amigos no grupo:

– E hoje?

– E hoje, hein?

– Pessoal cansado.

Eram os amigos que começavam a tirar sarro desde às 08hs da manhã, Portuga em sua casa lia, balançava a cabeça negativamente e ficava silente, mas não se entregava, perto do fim de tarde lançava:

– Ninguém quer ir ao cinema comigo? Pô, galera, vamos sair! Já que a vingança é um prato que se come frio, a amizade é uma bebida a ser brindada todos os dias, vamos tomar umas! – filosofava.

Quase sempre conseguia alguém pra sair, mas não sem ser zoado pelo pessoal pela sua carência social.

Certa feita, Nilson resolveu organizar uma surpresa para agradar Portuga, combinou com todos os amigos do grupo de ir até a casa dele com vinho, cerveja e tremoços, iam ver o jogo do segundo time de Portuga, o Vasco.

Portuga mandou várias mensagens para o grupo:

– E hoje, hein?

– Alguém vai sair?

– Ó, se forem fazer algo me avisem.

Mas ninguém respondia. Ele se irritou e até desligou o celular. Quase perto da hora do jogo, a campainha tocou e ele pensou – “quem vai me encher na porra da hora do jogo?” -, mas foi lá abrir a porta.

Não acreditava no que via, todos estavam lá com a camisa do Flamengo para tirar um sarro da sua cara, abriu a porta, sorriu e franqueou a entrada, agora menos fulo da vida.

– Portuga, tem que ser menos estressado, menos aflito, pô!

– Pô, tem que se ocupar, cara! – diziam.

Portuga não falava nada, só dizia:

– Só quero passar o maior tempo possível com vocês porque são meus amigos.

E o jogo começou. Como de hábito o Flamengo batia o Vasco e Portuga, estressado, disse:

– Vou no quintal fumar.

E Nilson rebateu: “meu, essa merda ainda vai te fazer mal”

Enquanto a sala estava sem Portuga, Marta procurava alguma coisa para tirar sarro e abriu o notebook dele e se surpreendeu, várias páginas abertas cujo tema era leucemia.

Marta gelou, quase chorou.

– Gente, venham ver isso aqui.

Se emocionaram. Era por isso que Portuga estava tão aflito e carente, estava mal e com medo, mas por que não contara aos amigos?

A noite acabara para eles, uns olhando para os outros, tristes, desolados, quando Nilson disse:

– Galera, pode não ser nada de mais, leucemia é passível de cura, não vamos nos desesperar, o cara vai ficar bem.

– Nilson, é leucemia, porra! O cara pode morrer, porra – rebateu Daniel.

Nilson se calou.

Nisso, pela porta dos fundos surge Portuga, surpreso e irritado ao ver que mexeram em seu note.

– Quem mexeu no meu computador?!

– Portuga, já sabemos – interrompendo a reclamação dele, falando com voz embargada e cabisbaixa Marta.

– Sabem? – indagou.

– Sim, da sua doença, leucemia – afirmou Leonilde.

Portuga abaixou a cabeça, derramou uma lágrima escondido de todos e silente olhou de soslaio para Nilson, sem que ninguém percebesse.

De repente, levantou a cabeça com um falso sorriso no rosto e bradou:

– Seus retardados, é para um tio meu que está preocupado, estou bem, de onde tiraram a ideia de que estou com leucemia?!

Todos ficaram aliviados, tranquilos, Portuga estava bem, que bom.

Todos menos Portuga e Nilson. O segredo deste último estava guardado, não queria que a galera lhe tratasse como doente, não queria pena, não queria tristeza entre eles, sempre foram felizes e assim deveriam continuar, Portuga só estava fazendo a parte dele tentando reunir os amigos envolta de Nilson para que se sentisse amado e tivesse mais forças para combater a leucemia.

Para Portuga amizade era isso, ajudar os amigos incondicionalmente, respeitando suas vontades ainda que não concordasse, até porque, como ele dizia: “já que a vingança é um prato que se come frio, a amizade é uma bebida a ser brindada todos os dias!”

E assim brindaram à amizade sem que Nilson contasse seu segredo, mas com muito desejo de viver muitos anos com seus amigos!

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