TODOS DIZEM EU TE AMO

Capa do famoso filme de Woody Allen

Capa do famoso filme de Woody Allen

Todos dizem eu te amo. A frase é do famoso filme do festejado Woody Allen, mas o mote do post não veio do filme, mas sim de uma atitude uma pessoa querida que muito me deixou lisonjeado.

Nem todo mundo é afeto a palavras ou a demonstrações de sentimentos, às vezes para algumas pessoas isso é muito difícil, seja porque elas não percebam que são assim, seja porque mantêm algum bloqueio que as impede de exercer algum gesto.

Convivi com inúmeras pessoas assim, o que não mudou meu jeito cheio de sentimentalidades de ser. Tive exemplos próximos de como não se demonstrar carinho, mas depois de um tempo a gente para de questionar o sentimento dessa pessoa e passa a aprender a enxergar onde estão os atos afáveis dela.

Quando pequeno, convivi com meu avô por parte de pai, tinha cerca de cinco anos e ele uns 55 anos, já havia sofrido um ou dois derrames, tinha dificuldades na fala e motora, era estranho pra mim que era uma criança entender tudo aquilo.

Quando chegava na casa dele, meu pai mandava eu pedir a benção mas – puta que pariu -, parecia que eu era protagonista do Walking Dead e ele estava me mandando em direção dos zumbis, porém, obediente que era, ia.

Chegava perto de meu avô Joaquim – esse era o nome dele mas era carinhosamente chamado de Vô Quinho -, e ia pedir a benção…com a mão estendida e a inocência de uma criança…mas toda a santa vez, ao invés de apertar a minha mão ou me dar um beijo torto com sua boca enferma, me dava uma porra de um beliscão.

Doía. Não, não doía. Doía pra caralho! Mas doía mais na alma do que no corpo pois ainda tinha que voltar sem chorar na direção dos meus pais para que ninguém brigasse com o Vô Quinho.

Meu outro avô, Tomio, também era assim, não me recordo de nenhum gesto de carinho, só críticas e críticas na minha adolescência e maioridade. Sempre eu estava errado em algo, agia errado, que fazia coisas idiotas. Eu discutia com ele, mas não adiantava, ele sempre me colocava pra baixo.

Diferente não é a relação com meu pai. Sujeito do interior, ele dificilmente sabe exprimir carinho ou afeição, tanto que só me recordo de dois abraços dele durante toda vida:

Um deles após sua internação por cerca de trinta dias quando foi dado com enfartado e com grande risco de morte, todos da família foram visitá-lo no hospital, exceto este subscritor pois detesta (detestava ainda mais quando pequeno) ver entes internados.

Quando cheguei da escola que o vi sentado no sofá de casa e bem, corri para seus braços e passei a chorar copiosamente de alegria e nem sei se ele se recorda disso, nunca mais falamos sobre, mas não esquecerei.

A outra vez aconteceu durante minha formatura da faculdade na homenagem aos pais e um colega leu algo que escrevera, um tipo de poema. Foi aquela comoção geral. Fomos  convidados a abraçá-los (no poema terminava assim) e fui.

Ao chegar vi que meu pai estava até com lágrimas nos olhos, o que – admito -, só o vi quando deu uma topada com o dedo mindinho no pé da cama e quase o quebrou (o dedo).

No entanto, para contrapor esses homens das cavernas da minha vida, nasceu meu filho que é que totalmente diferente. Uma das pessoas mais carinhosas que já conheci, mesmo com seus quatro anos de idade. Ele dá beijos, faz carinhos, se declara para quem ele gosta e sabe exatamente o momento correto para isso.

Por vezes está deitado a meu lado na cama, vira para minha direção, repousa a mão sobre meu rosto e fala: “papai, sabe, eu te amo muito!”

Lágrimas chegam a escorrer por essa demonstração de afeto de uma pessoa que eu também amo demais sabe demonstrar esse carinho de forma singular.

Mas independentemente do jeito de meus ascendentes, sei que, da forma deles, me diziam sempre que me amavam, talvez de um jeito diferente, oblíquo, por certo, mas era o jeito deles.

Expressar sentimento não é fácil para quem não tem esse hábito ou jeito. Agir com naturalidade nesses momentos não é mole, pode até criar barreiras, portanto, é compreensível que algumas pessoas passem a vida inteira sem dispensar gestos mais íntimos ou de amor um para o outro, como com meus avós e meu pai.

O texto todo tem seu motivo. Esses dias uma pessoa especial, muito especial pra mim, externou seu afeto por meio de uma foto e poucas palavras no facebook. Esse pequeno gesto foi admirável e sei que para ela foi ousado e de difícil exposição; ela é reservada, logo, suas demonstrações públicas do querer são tímidas, veladas e, sempre, lindas!

No caso, realmente tive a certeza que certas imagens valem por mil palavras e que, em alguns momentos, valem muito mais do que um “eu te amo”.

Essa foi a forma dela dizer que tem um carinho especial por mim, uma forma oblíqua, como eu disse, mas uma forma que tocou profundamente meu coração e me fez refletir  que TODOS DIZEM EU TE AMO, só que cada um escolhe sua forma íntima e pessoal de fazê-lo e a dela foi perfeita!

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Uma resposta em “TODOS DIZEM EU TE AMO

  1. Você tem razão, meu pai quando queria sentar no lugar que eu estava ele me empurrava não pedia licença. Interessante sua crônica.

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