MULHERES – PARTE 1

muierbebassa

imagem de webbobeira.wordpress.com

Iara foi a primeira a chegar, sentou-se numa mesa redonda com cinco cadeiras, as demais estariam por vir.

– Tem wi-fi aqui? – questionou antes mesmo de olhar o cardápio.

Não sabia porque estava olhando o cardápio se já sabia o que ia pedir:

– Uma pina colada, por favor!

E passou a deslizar os dedos pelo celular, ora vendo facebook, ora whatsApp e deu uma espiada no Instagram. Viu a foto de Álvaro no facebook, rodeado de amigos num bar, franziu a testa e pensou consigo – “depois fala que está sofrendo porque nos separamos, porque o deixei, deve estar de paquerinha no bar, hunf!”

Iara era uma daquelas pessoas que falava paquerinha, paquera, azaração e outros palavras da década de 90 e sentia uma pequena ponta de ciúmes de Álvaro, ela não tinha culpa de não conseguir amá-lo, mas sua companhia era tão boa que também não queria ficar longe daquele sujeitinho safado.

Curtiu a foto, ele tinha o direito de seguir, ´tá, ciúmes sim, egoísmo não e ela não era egoísta.

Chegou sua bebida e em seguida Clara, a segunda a chegar.

– Iaaaaaara, saudades!!! – mulher é incrível, a exaltação da amizade sempre é bem-vinda, mesmo quando não é sincera, mas nesse caso era.

– E aí, Clarinha, até que não me deixou muito tempo sozinha, tudo bem? – Não se faz certas perguntas a algumas pessoas, e para Clara essa era uma pergunta que deveria vetada:  “tudo bem?”. Ela realmente se empenhava em mostrar que não estava tudo bem.

– Ai, meu, levando, né? Acabei de falar com o Marcinho, avisei – “não quero mais enquanto não largar a namorada” – ele pensa que vou ficar assim até quando?!

Sentou-se, ergueu o braço esquerdo porque com a mão direita segurava o celular e enquanto olhava se havia chegado algum WhatsApp, chamou o garçom sem mesmo olhar se estava por ali:

– Moço, um chope!

Ninguém respondeu.

– Atendimento aqui no Rio é uma merda mesmo! Quem está acostumada com São Paulo sofre aqui no Rio – reclamou.

Iara já sentia falta de seu silêncio e de sua voz mental, pois Clarinha não parava.

– Então – tentou puxar Iara – já era você e o Márcio mesmo?

– Ah, não, só falei isso para ver se ele se tocava, né? Se ele insistir vou correndo, sou apaixonada por ele. E você com o Álvaro? Não deu certo mesmo?

– Pois é, o meu problema é que não sou apaixonada por ele.

Riram e no momento chegou o garçom e afinal Clara abaixou o braço.

– Moço, dois chopes.

– Clara, já estou bebendo e…

– Vai beber um chope comigo – interrompeu a amiga – não se bebe chope sozinha.

Iara praguejou mentalmente a amiga, mas até que gostava desse jeito espontâneo da amiga.

– Mas não sei o que tem comigo, Iara, só pego homem casado ou comprometido, dou um azar, incrível. Acho que tenho que mudar de cidade ou de sexo, viu?

Iara riu, definitivamente Clara era divertida.

Chegaram os chopes. Brindaram. Um gole antes de repousar o copo na mesa amadeirada daquele moderninho bar do Leblon.

E com o chope chegaram Thaís e Flavinha. Duas amigas que eram o oposto uma da outra, mas inseparáveis.

– Oi, meninas – saudou Thaís, enquanto Flavinha já gritou – e aeeeeeee – e foi logo chegando e abraçando as demais na mesa.

Todas adoravam a presença de Flavinha, ela era engraçadíssima, era a versão feminina do Forrest Gump, sempre tinha uma história boa para contar.

Sentaram-se.

Prontamente o garçom veio.

– Mais quatro chopes – pediu Clara.

– Não, não, água para mim – interrompeu Thaís.

– E to tranquila com esse aqui ainda e nem matei minha pina colada ainda – comentou Iara.

– Ah, suas chatas – reclamou Clara – e você, Flavinha, tequila?

Riram.

– Alcoólatra é a mãe, tá? – Brincou a amiga – tequila só mais tarde.

Riram de novo, enquanto o garçom esperava o pedido.

– Dois chopes, uma água e o cardápio – era Clara mais uma  vez dando as honras da casa.

– E aí, como estão? – sempre educada Iara perguntou.

– Ah, to na mesma – respondeu timidamente Thaís – trabalho, casa, filmes…e nada de casinhos, cansei.

Riram.

– Por quê? – questionou Iara.

– Ah, sei lá, ´tá difícil, os caras só querem zoar, não querem nada sério ou os que me aparecem ou são comprometidos ou são feios ou duros.

– Ai, comprometido e durango não rola, foda, né? – anuiu Iara e continuou – mas te  entendo, Thaís, estava com o Álvaro, adoro tudo nele, tudo é perfeito, a gente se dá bem, a pegada é boa, a cama é boa, a companhia é boa, nos divertimos, mas sei lá, falta aquela coisa, aquele coisa de sentir falta, sabe? Mas também não quero ficar com alguém que seja tranqueira.

– Ah, mas se ele é tão legal assim… – divergiu Thaís – para mim só aparece tranqueira.

– Ai, vocês duas estão por fora – disse Clarinha – se eu fosse vocês…

– Clara! Se fosse elas você estaria saindo com um cara comprometido e não ia ficar com mais ninguém! Nem comece – cortou Flavinha.

Riram. Era verdade.

– Ah, mas se eu fosse solteira… – insistiu Clara.

– Mas você é solteira, criatura, o cara namora outra – combateu Flavinha.

– Mas é que sou apaixonada por ele.

– Então não fale das outras – e continuou Flavinha – eu mesma to louca para namorar, tá certo, eu saio, pego mesmo, conheço e tal, mas não to com saco, os homens estão cada vez menos interessantes e cada vez menos se vê cortesia ou sedução. Os manés mandam um whatsapp, chamam a gente para sair, nem conversam direito e já querem me comer – bravejou – sabe, tô transando menos atualmente que há cinco anos porque to sem saco para essa fase de “xaveco por rede social”, falta cara de atitude.

Concordaram.

– Está chato demais esse papo de face, tinder, whatsapp, era para ser só o início, mas parece que ao encontrar no bar, restaurante ou praia, os caras precisam de um celular para conversar pessoalmente com a gente – reforçou Iara.

– Talvez eu esteja exigente demais – voltou a falar Flavinha – não tanto quanto a Thaís que vê defeito em tudo, mas to mais chata também.

Riram.

Thaís se defendeu:

– Ah, mas não quero um príncipe, mas também não quero o bobo da corte, né?

Não, nenhuma delas queria.

Outra rodada de chope, mais conversas.

– Sabe, eu não sei se espero um amor, não sei se quero casar e ter filhos, acho que gosto da sensação de decidir as  coisas quando e como quero – proferiu Iara.

– Te entendo, Iara, mas eu gosto de ter um cara para sair, transar, curtir, é que hoje em dia nem isso os caras querem, não to falando em namoro não, to falando em parceria, sem compromisso sério, só não vale estar comigo e sair pegando geral também, daí não rola, né? – e continuou Flavinha – de vez em quando enche o saco ter a obrigação de sair, mas não quero mais de um, só que uma cervejinha com as amigas ou uma noite em casa curtindo minha hidro não são nada ruins.

– É, homem tem um defeito, só sabe entender dois tipos de  relacionamento: ou tem compromisso e eles nos traem ou não tem compromisso e acham que não precisa  ter fidelidade. Ou seja, a gente toma no cu de qualquer jeito – reclamou Clara.

Riram de novo.

– Ah, gente, eu quero namoro – falou Thaís.

– Nós sabemos, Thaís, aliás, quando você sai com alguém deve sair com um vestido de  noiva já – tirou uma onda Iara.

Gargalharam.

– É impossível para um cara sair só conosco e quando falamos que queremos ficar de boa ele ficar também? Só tomar umas, só curtir os amigos? – questionou Flávia – e quando a gente fala que não quer namorar? Já pensam: “quer dar para geral!”

Mais risos.

Nisso chegou Amanda.

Rosto fechado, de poucos amigos, no caso, amigas.

– Amandinha, que bom que  veio – Iara, como sempre receptiva.

– Ai, gente – quando uma mulher começa com “ai, gente” é porque foi toco e era – descobri que o Ricardinho tem outra.

Comoção. Ela não era a primeira e nem a última mulher do mundo a ser corneada e provavelmente esse nem devia ser seu primeiro e nem último chifre.

– Ah, ´Mandinha, acontece, fica assim não – tentou consolar Flavinha.

– E o que você fez? – indagou Clara.

– Ué, desmanchei!

– Não vai dar uma chance para o cara? – tentou Clara.

– Mas que chance, Clara? – rebateu Iara – ela está mais que certa, a gente aqui se queixando e você incentivando ela a ficar com um pilantra.

Silêncio.

– Chope?

– Chope!

Uma rodada para todas, menos para Thaís que pediu um suco de abacaxi.

O papo rolava solto, Iara vira uma clipe que Álvaro postara, uma música que eles ouviam sempre juntos, não comentou com ninguém, mas gostou e com um sorriso no canto da boca curtiu, tanto internamente quando no aplicativo.

Thaís olhava seu whats e nada de mensagem do carinha que a chamara para sair, ela não entendia como ficava sempre no “vamos combinar algo” e nunca acontecia nada, nem saía.

Flavinha tinha um  monte de mensagens no celular, nem olhava, deixava lá por horas, quando desse vontade ela lia de algum carinha mais legal, estava cansada do papo lugar-comum dos caras.

Amanda, bem, tiraram o celular de Amanda senão ela não conversaria com ninguém só olhando fixamente aguardando a mensagem do ex.

Já Clara ficava trocando mensagens obcenas com seu carinha que era comprometido, leia-se “putaria” quando se fala em obcenidade.

Mas até que estava uma tarde divertida.

Até que chegou Fernanda.

– Atrasilda!!!! – brincou Iara, a que sempre cumprimentava primeiro.

– Oi, casadinha!!! – lançou Flavinha – e essa vida de casada? Três anos?

– Quatro, menina, passa rápido, né? – confessou Fernanda – está ótima, acredita que me atrasei porque eu e o Beto ficamos dando uma namorada??? Ele estava de folga e…

– Ah, não deixe a gente com invejaaaaa – zoou Flavia – que bom que estão assim.

“vaca” – pensou Clara.

“mulher de sorte” – refletiu Thaís.

“que lindinhos” – falou para si Iara.

“tenho que encontrar um cara assim” – suspirou Flavinha

“Que saudade do Ricardinho” – lamuriava Amanda.

E após três  segundos, Flávia irrompeu o silêncio:

– Tequila, gente?

E a noite foi intensa, como são intensas as histórias das mulheres que amam.

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