VAMOS FALAR DA ANSIEDADE?

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Tenho uma amiga de infância que me acompanha pela vida toda, não larga, não desgarra, não desgruda, seu nome é Ansiedade.

Eu juro que por muito tempo eu achei sua companhia bem aprazível, convivi bem, ela dava um toque diferente na minha personalidade e por vezes eu a continha quando ela, sorrateiramente, procurava dar o ar da graça em situações inoportunas.

Em que pese ela já ter me colocado em momentos embaraçosos, ela era uma parceira com quem eu tinha aceitado viver, havia me adaptado e já até me acostumara com sua marcante e, por vezes, desairosa presença.

Porém, de uns tempos pra cá essa minha amiga anda assanhada, querendo se aparecer demais por aí.

Anda se incomodando com várias coisas e por conseguinte, me incomodando, não gosta de esperar por nada e tudo pra ela é uma perda de tempo, vive me acelerando e não me deixa sossegado, durmo mal, não me concentro, não sigo rotinas, não consigo sequer terminar um livro porque absolutamente algo que mereça que fique quieto por mais de 5min se torna maçante, uma tarefa quase hercúlea.

Então, é assim, eu não desligo mais o computador porque demora a ligar, eu deixo minha comida queimar porque não tenho paciência de esperar e vou fazendo outras coisas, eu tomo café durante o banho que é para não perder tempo – juro -, eu esqueço a comida queimada esfriando em cima da mesa porque começo a lavar a louça, a espera do elevador é praticamente o mesmo tempo que uma missa pra mim.

Deixo o ferro esquentando enquanto vou acionando o chuveiro para dosar a temperatura da água, dirijo teclando ao celular porque não gosto de ver aquele monte de notificações, faço lista do que preciso realizar no trabalho, acabo não cumprindo a lista, faço outras listas pra substituir a original e assim sucessivamente, vou abastecer o carro, enquanto isso aproveito pra sacar dinheiro, tomar outro café e se bobear ainda faço polichinelo só pra não ficar esperando, vou pra academia e meu treino é de 25min, invento desculpas que é porque é melhor, quando na verdade é minha ansiedade de terminar logo que me sujeita a isso, não espero as músicas terminarem e fico passando uma a uma, volto, paro no meio, repito, não paro de mexer até o troço do spotify travar e eu ficar mais puto da vida.

E quando alguém no trabalho quer me contar algo de relevância? Fico na pretensa imaginação de que já ouvi tudo só com a primeira frase e disperso; e as pessoas chatas que aparecem no seu dia e ficam puxando papo? Chatos me entediam mais hoje que ontem e me afasto cada vez mais porque o amanhã não pode contemplar gente assim porque é perda de tempo e isso me angustia.

Tenho uns cinco livros na cabeça pra terminar, mas não concluo, é maçante pra mim fazer até isso, algo que amo que é escrever, é estranho; dormir pra mim é perda de tempo, como não desfrutar o dia? E esperar o netflix carregar? Meoooo Deooooos, já desisto de ver qualquer filme e vou para a TV a cabo ficar passando do Off para Warner, da Warner para o Off, sem nenhum porquê. E quem me conhece sabe que tento marcar um milhão de eventos como se eu fosse como Deus, onipresente, daí, acabo não conseguindo ir a 80% (oitenta por cento) deles e fico com a fama de que sou furão.

Além de tudo isso, ainda tenho que me segurar para dominar outro brother de infância, o TOC, e quando mais a Ansiedade se manifesta, mais duro tenho que agir com seu amiguinho, senão, daí fico mais repetitivo que máquina de relógio.

Pior, não posso me queixar da vida, mas essa minha amiga que me acompanha acha tudo muito lento em volta dela e isso acaba refletindo em mim, muita coisa me entedia hoje em dia, talvez por isso precise cada vez mais de coisas novas, cursos novos, viagens, esportes de aventura, que é para me dar injeções de ânimo e adrenalina para saciar um pouco essa desajuizada amiga.

Sempre a controlei bem, éramos companheiros, cúmplices, mas atualmente ela se mostra muito rebelde, quase que uma dominadora, não está legal a relação.

Por isso, decidi, acho que essa amizade tende a chegar ao fim, não está valendo mais à pena, não está sadio conviver mais com ela.

Prometi que esse mês  é o último que passarei sem nenhuma medida resoluta, já até marquei um médico, me inscrevi no yoga, procurarei um pai de santo, vou ligar para CVV e até me inscrevi em programas científicos para aprender a me desgarrar dessa minha amiga.

Talvez demore, talvez seja um caminho árduo e de muita paciência, mas tenho certeza de que dela não sentirei saudades, pois do jeito que está, vou acabar botando fogo ou na minha casa ou na minha cabeça.

A ansiedade é um mal silencioso que lhe consome e faz acreditar que é parte da sua personalidade e quando você menos espera, já não sabe mais se é você mesmo ou se é um confuso rascunho de suas vontades e desejos que não consegue mais dominar.

A ansiedade é assim e é triste!

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