PROCURO UM AMOR QUE NÃO FALE ERRADO!

 

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Sou natural de Santos, no litoral de São Paulo, e quem conhece os santistas sabe que conjugamos erroneamente a segunda pessoa do singular de todos os verbos. Usamos o “tu” mas conjugado com a terceira pessoa do singular.

É usual entre os santistas o “tu vai lá?”; “tu comprou o presente para sua irmã?”; “tu sabe qual o nome daquela música?” e assim vai.

Faço essa ressalva para esclarecer que o texto respeita as expressões populares e regionais e não é sobre elas que se trata, mas sim dos grosseiros erros que cometemos cotidianamente no trato com a gramática.

E parece que as pessoas estão se importando cada vez menos com isso, parece que quando corrigimos alguém, ainda que de forma sutil para ajudá-la, estamos na verdade contribuindo para tornar a vida mais chata  pois hoje em dia deve vencer a cultura da “comunicação a qualquer custo” ou “tenho liberdade para falar do jeito que quero”.

Ouso discordar de quem pensa assim.

Tanto é que não cometer erros crassos é um dos requisitos pessoais para conhecer alguma pretendente, é como ter curso de inglês para concorrer a cargos que não tem correspondência nenhuma com a língua, é critério mínimo eliminatório no caso de ampla concorrência.

Então é mais ou menos assim, falou “seje”, está fora; conjugou “a gente vamos”, eliminada; proferiu “tinha chego”, não chego nem perto; e assim vai…

Nessa esteira existem as eliminadas por whats app.

Claro, não dá para ler que a pessoa é ‘”afim” de mim’, pois começo a achar que a fulana mantém algum parentesco comigo que desconhecia; ou ler que ‘”agente” vai ser muito feliz’ e não pensar que ela está falando de algum tio detetive que você ainda não foi apresentado.

Se entrarmos na esfera da ortografia então, a eliminação é mais fácil, mas daí, convenhamos, todos nós erramos diariamente uma dezena de palavras sem nem mesmo percebermos e temos que relevar.

Que não pareça empáfia, pois não quero namorar uma Clarice Lispector, mas é que às vezes não dá, né, gente?

Quando você está lá, durante um jantar romântico e a pessoa solta que no último relacionamento teve muitas “percas”, o vinho até fica engasgado na garganta e dá vontade de fingir um infarto para se livrar da situação.

Não se trata de sabatinar ninguém sobre Orações Coordenadas Assindéticas, até porque a pessoa poderia inventar qualquer resposta que eu nem saberia se estaria correto, só não dá para não saber diferenciar o “por que” do “porque”, e nem precisa saber o uso do circunflexo nelas porque daí já é um nível mais avançado, combinemos.

Mas admito que acabo extrapolando, pego umas cismas, pessoas que querem mostrar que sabem demais também me irritam porque, sei lá, porque me irritam mesmo e acho que todo mundo tem algo peculiar que faz perder o tesão.

No meu caso, pessoas que falam ‘foi “aaaaaa” casa de Maria’ quando se refere ao uso da crase ou que enfatizam que alguém tem “PRÉconceito” quando quer esclarecer a autoexplicativa palavra, me dão desânimo, em especial porque imagino que a demonstração de autossuficiência precede o equívoco; e logo virá um ‘hoje estou “meia” cansada’ ou ‘nosso relação está “a nível de” noivado’ pra desmontar toda aquela pose dos exemplos anteriores.

Como falei, não procuro uma professora de gramática, mas procuro um amor que não fale “seje”; ou que saiba diferenciar “mais” de “mas”.

Procuro alguém que minimamente utilize pontuação nas mensagens para que eu consiga entender que “minha boca na sua, rola?” é diferente de “minha boca na sua rola” e que quando ela acorda de ressaca foi de álcool e não de outra coisa ao escrever “nunca mais vou beber porra”.

Falar e escrever corretamente pode até não conquistar alguém, mas, convenhamos, muitas vezes é broxante quem escreve errado.

E se a luxúria é um pecado que se torna doce nos braços de quem se ama, falar ou escrever errado é um amargo e imbatível contraceptivo para quem preza o mínimo de destreza na língua portuguesa.

Aliás, uma amiga diz que não há nada mais sedutor que palavras certas ditas no momento exato, enquanto se saboreia um Merlot, ao som de Chet Baker; mas faço a ressalva: desde que ditas corretamente.

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